Sou uma Jóia
“Sou uma Jóia” é um projecto de instalação performativa que visa estabelecer uma plataforma de acção que possibilite à “joalharia contemporânea” saltar as suas fronteiras comuns integrar as estruturas da designada “arte actual”. Um convite à reflexão sobre inúmeros conceitos (e pré-conceitos), um apelo à construção de novos sentidos num enquadramento repleto de realidades bipolares. Como se define uma jóia? Como se define uma “jóia contemporânea”? Como reconhece uma obra de arte? Como se identifica uma obra de “arte actual”? As possíveis respostas terão todas o carácter subjectivo e mutável que advém da inevitável pluralidade de definições que acompanha o constante movimento metamórfico da realidade actual. Não se trata de um beco sem saída mas sim de uma abertura de fronteiras onde as diferentes realidades se cruzam e se fecundam de modo híbrido. Não estamos perante uma limitação mas sim de uma libertação. Num processo de auto-referência dentro do âmbito conceptual da “joalharia contemporânea” esta peça afirma: “Sou uma jóia, não sou um circulo de papel negro com letras brancas. Sou uma jóia, preciosa e única.”. Não são os materiais nem as técnicas que definem o valor de uma jóia contemporânea.
“Sou uma jóia” pode ser uma jóia não obstante as suas características particulares: feita de papel impresso, de aplicação pontual e efémera.
Por outro lado, a dinâmica deste projecto só ganha sentido através da sua aplicação à realidade. Temos, antes do mais, um dispositivo de instalação performativa em potencia para experienciar em espaço real, em tempo real, com pessoas reais. O dispositivo é posto em acção nas ruas da cidade, nos lugares públicos habitados por “gentes”, pessoas diversas, todas elas portadoras do seu carácter único. Em cada momento que accionamos este dispositivo são distribuídos às pessoas flyers com três perguntas: “És único? És precioso? És uma jóia?”. Em simultâneo oferece-se a possibilidade de aplicar na roupa de cada pessoa uma “jóia” que afirma “Sou uma jóia”. As “jóias” são aplicadas através de pistolas de etiquetas. Um pequeno furo na roupa e a “jóia” é colocada como se fosse uma etiqueta de preços de roupa.
Podemos então perceber que o projecto “Sou uma Jóia” também inverte os papeis usualmente atribuídos aos objectos de adorno. Aqui o primeiro referente não é o objecto artístico mas sim o utilizador. O valor simbólico é transferido para o sujeito que leva o objecto. È na realidade um processo de referência recíproca: por um lado o sujeito refere a jóia, por outro lado a jóia refere o sujeito que a transporta.
Entendendo, desta forma, a “jóia” despida do seu valor auto-referêncial, ela passa a ser um veículo expressivo da consciência de quem a usa: A convicção de cada pessoa em sentir-se única e preciosa. O sujeito afirma-se ele próprio como sendo uma jóia. O sujeito reconhece o seu valor único e precioso. A pessoa não adquire valor de status social porque leva uma jóia materialmente valiosa (de ouro ou diamantes, por exemplo), ou uma jóia esteticamente deslumbrante. A pessoa é valorizada si mesma, sem necessidade de adornos. O verdadeiro valor deste projecto é possibilitar uma expressão auto-consciente do sujeito que percebe, assume e reivindica a sua unicidade e valor intrínseco.
Podemos entender um outro ponto reflexivo: as “jóias” são todas iguais, um círculo negro com letras brancas que dizem “Sou uma Jóia”. Poderíamos então pensar que esta igualdade acaba por uniformizar ou anular o carácter único e distinto de cada sujeito. Pelo contrário, apesar das pessoas poderem usar, vestir, ou colocar objectos iguais, elas não deixam nunca de ser elas próprias, únicas e preciosas. Neste projecto pretende-se reafirmar que não é o objecto exterior que classifica a pessoa mas sim a pessoa que classifica o objecto e lhe confere carácter de unicidade. Em última análise a “jóia” perde todo o seu valor simbólico e adquire um valor supérfluo face ao valor real do sujeito.
Voltando às fronteiras da joalharia contemporânea, imaginando que podemos juntar algumas das pessoas que usam a “jóia” “Sou uma jóia” e pedir-lhes que, dando juntos as mãos, componham um circulo gigante. Cada pessoa aqui entendida como uma pérola, todas juntas configurariam um imenso colar. Estaremos perante um imenso, único e valiosíssimo “Colar de Pérolas?
Como se regista este projecto?
Registamos a nível gráfico todas as vezes em que se activa o dispositivo deste projecto. As pessoas em que se aplica a jóia são fotografadas num dado espaço e momento e posteriormente é realizado um cartaz que resume e regista essa acção. Vários cartazes serão realizados ao longo de um ano como resultado das diversas instalações performativas realizadas. Todo o trabalho de fotografia e design gráfico é da responsabilidade de Chiara Zenzani.
Enjoya´t 07
O projecto estreou no contexto do concurso Enjoia´t 07 realizado pela Associação Orfrebres FAD, em Barcelona (30 Novembro 2007). Esta acção foi realizada em Castelhano.
Idioma utilizado
Este dispositivo pode ser utilizado em qualquer idioma dependendo do espaço geográfico e cultural onde se aplica.




